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LIÇÕES DE HISTÓRIA para um futuro melhor: A REVOLUÇÃO DE 1922

LIÇÕES DE HISTÓRIA para um futuro melhor: A REVOLUÇÃO DE 1922.
Os tempos passam, quais fatos e conjunturas são semelhantes ou diferentes?
ISTO SEM CONTAR os acontecimentos REVOLUCIONÁRIOS de 1924, 1930, 1932 E 1935.

Muitos nomes históricos dos participantes são bastantes nossos conhecidos.

REVOLUÇÃO DE 1922

Efervescência revolucionária

As glórias conquistadas pelas armas brasileiras por ocasião da Guerra da Tríplice Aliança foram rapidamente esquecidas pelos estadistas do Império, que acreditando improvável outro conflito bélico, não compreenderam a importância das Forças Armadas no processo de Defesa Nacional. Negavam as atenções e o zelo necessários à manutenção da eficiência operacional dessas forças, em nível compatível com a posição do Brasil entre as demais nações da América do Sul.

Ocorreram vários conflitos, resultantes em geral de atitudes hostis de elementos do governo contra chefes militares que desejavam o aprimoramento e o reaparelhamento do Exército. Logo se difundiu na corporação, desaparelhada e mal instruída, a opinião de que o governo a menosprezava, não lhe permitindo o direito de participar do processo de desenvolvimento nacional.

 Em conseqüência, os mais conceituados chefes militares foram atraídos por grupos políticos enquanto se avolumavam os efeitos da guerra, agravando os problemas da instrução e da disciplina. Nem mesmo a implantação da República devolveu ao Exército as condições necessárias à defesa do país na eventualidade de uma agressão estrangeira.

A Revolução Federalista e a Revolta da Armada trouxeram graves prejuízos à reorganização e ao reaparelhamento das Forças Armadas. Mal saído de tão sombrio período, no episódio de Canudos, desaparelhado, lutando contra elementos adversos, em teatro inóspito e longínquo, o Exército deu um exemplo de seu valor combativo. Mesmo nesse estado de desarmamento e desorganização ainda pôde, com muitas das unidades que acabavam de combater naquela região, realizar o esforço titânico que decidiu a Revolução Acreana e propiciou a assinatura do Tratado de Petrópolis.

A implantação da vacina obrigatória contra a varíola, Lei aprovada pelo Congresso em 31 de outubro de 1904, provocou nova crise no Exército, prejudicial à solidez da estrutura militar.

No dia 11 de novembro explodiu uma revolta popular que tomou conta das ruas do Rio de Janeiro. No dia 14, um grupo de militares, reunido no Clube Militar, decidiu derrubar o governo aproveitando a insatisfação popular. O Senador Lauro Sodré e o General Silvestre Travassos dirigiram-se à Escola Militar, na Praia Vermelha, prenderam o seu comandante, General Alípio de Macedo Costallat e revoltaram a maioria dos cadetes. Dirigiram-se, então, para o Palácio do Catete chocando-se com tropas legais do 1º Regimento de Infantaria e da Brigada Policial, à frente das quais estava o General Carlos da Silva Piragibe, na rua da Passagem, às 22:30 horas. O encontro não passou de uma grande fuzilaria, refluindo ambos os contendores.

O Major Gomes de Castro, enviado a Realengo para revoltar a Escola de Tática, foi preso pelo General Hermes da Fonseca, sem alcançar as suas intenções.

 O General Travassos morreu durante a refrega; Lauro Sodré ficou detido 10 meses em navio de guerra; os cadetes foram desligados e a Escola Militar passou a funcionar no Realengo.

 Hermes da Fonseca e Olavo Bilac pela renovação do Exército

Quando da substituição de Nil Peçanha, duas lideranças surgiram para cristalizar as correntes político-partidárias. Buscando envolver o prestígio do Exército, já que a luta se prenunciava difícil, com Rui Barbosa encabeçando uma das chapas concorrentes, o grupo do governo lançou o nome do Marechal Hermes da Fonseca. Com retórica aliciadora, os entusiastas de Rui Barbosa fizeram-se chamar de civilistas, apontando a corrente oposta como militarista, criando um antagonismo artificial.

Eleito o Marechal Hermes, continuaram as lutas entre os políticos antagônicos. Políticos e demagogos usaram contra o governo os mais baixos recursos e artifícios, incitando os quadros subalternos à indisciplina e à revolta. Isso perturbou todo o período governamental impedindo o pleno exercício do poder. O Marechal Hermes, que aparecia no cenário brasileiro como o homem capaz de devolver à nossa organização militar a tranqüilidade e eficiência operacional, não pôde realizar o seu programa. Quando Ministro da Guerra no governo de Afonso Pena, adotara medidas fundamentais para assegurar a renovação da Força Terrestre, como o alistamento e o serviço militar, baseados na Lei nº 1.860, de 4 de janeiro de 1908.

Os momentos difíceis vividos pelo Brasil com a Primeira Guerra Mundial fizeram com que o Presidente Wenceslau Braz, sucessor de Hermes da Fonseca, dirigisse apelo ao povo e às Forças Armadas solicitando um imposto de honra para que o Brasil pudesse atendei aos seus compromissos externos. Reduziram-se todas as despesas públicas e também os efetivos do Exército, apesar de se estar num clima de guerra mundial, com a conseqüente necessidade de mobilização de recursos militares.

Foi quando entrou no cenário político o poeta Olavo Bilac. Homem com indiscutível formação cívica, saiu como um apóstolo a pregar pelo país a necessidade do serviço militar, mostrando o quartel como escola de civismo:

"Pregai o patriotismo aqui e lá fora, nas bancadas das aulas, nos laboratórios, nas salas do hospital, nas ruas, nos lares em que nascestes, nos lares novos que constituireis, e em que o vosso afeto frutificará em novos brasileiros."

A mocidade atendeu ao chamamento, formando fileiras para receber instrução militar. Era o novo Exército preconizado pela "reorganização Hermes" e pelos militares idealistas que encontravam na revista A Defesa Nacional, fundada em 1913, seu instrumento de luta.

Reflexos de 1922 no meio militar

Terminada a Primeira Guerra Mundial, começaram a ocorrer alterações na doutrina militar e no material bélico, com os conseqüentes reflexos sobre a organização dos efetivos militares. O advento das armas automáticas provocou mudanças nas antigas formações de combate, onde predominava a linha de atiradores. O momento era oportuno para atualizar o Exército. Por isso o Brasil contratou a Missão Militar Francesa, que nos prestou grande e inegável benefício.

Empossado na Presidência da República, Epitácio Pessoa trouxe para o Ministério da Guerra o estadista João Pandiá Calógeras, conhecedor do problema militar brasileiro e velho apaixonado pelos assuntos da caserna. Coadjuvado por oficiais de elevado nível profissional e com base nos ensinamentos da Missão Militar Francesa, Calógeras conseguiu realizar obra notável, revigorando o espírito do Exército, atualizando a instrução profissional, aparelhando escolas, fábricas e arsenais e construindo quartéis nas guarnições de fronteira.

Entretanto, ainda uma vez esse desenvolvimento promissor seria interrompido, pois os políticos vieram de novo aos quartéis perturbar a sua atividade.

A campanha presidencial iniciada em 1921 caracterizou-se pela grande exacerbação, talvez maior no período republicano. Concorriam Artur Bernardes, Presidente de Minas-Gerais, e Nilo Peçanha, ex-Presidente da República.

Partidários de ambas as facções logo quiseram envolver o Exército na campanha sucessória. A excitação dos ânimos atingiu proporções de explosão, quando o jornal Correio da Manhã publicou, em 9 de outubro de 1921, uma carta atribuída a Artur Bernardes, endereçada a Raul Soares, Ministro da Marinha, contendo conceitos ofensivos aos chefes militares. Seguiu-se uma segunda carta, publicada no dia 13. Explorado por intensa campanha jornalística, o fato exaltou a opinião pública. Exigida a prova pericial que permitisse comprovar ou desmentir a autenticidade dos documentos, o Clube Militar, presidido pelo Marechal Hermes, reuniu-se em sessão extraordinária a 12 de novembro e resolveu nomear uma comissão para examinar o problema. A 28 de dezembro foi aprovada por assembléia a moção Frutuoso Mendes:

"(...) Considerando que ficou apurada a autenticidade da carta contendo expressões ofensivas ao Exército e à Armada, dada à publicidade nesta capital a 9 de outubro último e porque não tenha este Clube qualidade jurídica para promover ação em desafronta das corporações ofendidas resolve entregar por isso o caso ao julgamento da Nação".

 

A Reação Republicana (de Nilo Peçanha) valeu-se da exasperação dos espíritos para correr o país, agitando as massas. Realizaram-se as eleições num ambiente de intranqüilidade, vencendo, apesar de tudo, o candidato situacionista Artur Bernardes, que foi reconhecido pelo Congresso, sendo marcada a posse para o dia 15 de novembro.

 Outro fator que contribuiu para tumultuar a situação foi a campanha sucessória em Pernambuco, onde o governo federal foi acusado de querer colocar o Exército a serviço da causa a que estavam ligados parentes do Presidente Epitácio Pessoa. Era crença generalizada nos meios militares que o Presidente exercia interferência nos assuntos de Pernambuco. Hermes da Fonseca, magoado com a intransigência do Presidente Epitácio Pessoa em acreditar na inocência de Artur Bernardes, resolveu enviar, como presidente do Clube Militar, um telegrama ao comandante da 6ª Região Militar, com sede em Recife, Coronel Jaime Pessoa da Silveira, datado de 29 de junho, lembrando ao oficial que meditasse sobre os artigos 60 e 140 da Constituição e, assim, deixasse de cumprir ordens que atentavam contra a destinação constitucional da Força Terrestre. No mesmo dia da publicação do telegrama, 30 de junho, o Ministro da Guerra indagou ao Marechal Hermes, por intermédio do General Neiva de Figueiredo, se o despacho era de sua autoria, recebendo resposta afirmativa. Imediatamente o Presidente da República mandou repreender o presidente do Clube Militar, por ato datado de 1º de julho. Como este não aceitasse a punição, revidando em carta dirigida ao Presidente da República, ela foi agravada para prisão por 24 horas, a ser cumprida no 3º Regimento de Infantaria, fechando-se ao mesmo tempo o Clube Militar por seis meses, sem amparo legal e valendo-se de legislação afrontosa à honra das instituições armadas.

A trama envolvera em demasia o Exército que, desaparelhado, não dispunha de motivação técnico-profissional entre seus quadros. A maioria dos signatários da moção Frutuoso Mendes passou a conspirar para impedir a posse dos eleitos, unindo-se aos políticos derrotados, que pretendiam vencer com o emprego da força.

 A prisão do ex-Presidente da República e Marechal do Exército em condições que feriam sua dignidade de oficial general fez com que aumentasse a agitação na tropa. O recolhimento do Marechal Hermes a um corpo de tropa parecia aos jovens oficiais, com outras versões sobre a crise, indicar a "intenção do governo de afrontar acintosamente os brios do Exército, pelo amesquinhamento de uma alta patente".

A conspiração foi-se alastrando pelas unidades militares. Ao Forte de Copacabana, pela sua projeção, como também pelo fato de estar em seu comando o Capitão Euclides da Fonseca, filho do Marechal Hermes da Fonseca, caberia a ação inicial de rebeldia da mocidade militar brasileira. Como escreveu Osvaldo Torres Galvão:

"Dos revoltosos de 1922 em diante – sejam eles os sobreviventes dos legendários 18 do Forte, que, na realidade, eram apenas onze, sejam os jovens cadetes desligados da Escola Militar que percorreram como Nelson de Melo e outros, os sertões do Brasil, na marcha da Coluna Invicta, sejam os velhos revolucionários combatentes de outras batalhas como o General Isidoro Lopes e o Coronel João Francisco, todos eles lutaram ao seu modo e pela forma que julgavam melhor, para exterminar a raiz do despotismo político dos obsoletos e anacrônicos partidos republicanos, eternamente situacionistas, e impor o voto secreto e as leis sociais de que o Brasil tanto necessitava. Essa a razão por que, em 1930, irmanados nos mesmos ideais e sob a mesma bandeira, os chefes e soldados eram (...) unidos para fazer a Revolução, antes que o povo a faça. Porque sempre foi obra de sabedoria política prevenir antes que remediar!"

Deste modo, aparentemente movido por causas que um observador apressado definiria como meramente corporativas, o Exército começava a grande luta pela restauração republicana e o troar dos canhões do Forte de Copacabana anunciaria a grande revolução brasileira.

 Revolução de 1922 – Rio de Janeiro

O movimento foi desencadeado na madrugada de 4 para 5 de julho de 1922. Surgiu em três focos distintos – a Vila Militar, a Escola Militar do Realengo e o Forte de Copacabana. Neste último os preparativos foram feitos com larga antecedência, destacando-se a construção de trincheiras e de redes de arame farpado, o reabastecimento dos depósitos com víveres para um mês, a retenção do pessoal no quartel, a eletrificação de redes e a transferência de alojamentos e cozinhas para locais protegidos.

Suspeitando o governo de que algo de anormal se passava na unidade, determinou ao General Bonifácio Gomes da Costa, comandante do 1º Distrito de Artilharia de Costa que para ali se dirigisse e substituísse no comando o Capitão Euclides da Fonseca. A providência, no entanto, não logrou êxito. O emissário perdeu a esperança de evitar o levante, sendo aprisionado pelo Tenente Siqueira Campos, verdadeiro mentor da revolta, embora logo fosse solto. O que se via e sentia era inusitado. Havia intensa movimentação no aquartelamento. Chegavam reforços e o efetivo aumentava a cada instante. Às 16 horas, o 1º Tenente Artilheiro Eduardo Gomes apresentou-se pedindo para aderir. Às 22 horas, chegaram 54 homens do Forte do Vigia, comandados pelo Tenente Fernando Bruce. Ainda surgiram o Major Joaquim Antônio Pereira, Capitães João Carlos Barreto, Leopoldo Nery da Fonseca Júnior, Renato Onofre Pinto Aleixo, Antônio de Souza Aguiar, Primeiros Tenentes Silvino Bezerra Cavalcanti, Tasso de Oliveira Tinoco, Edgar de Albuquerque Maia, Henrique Cunha e José Coelho Valente e 2º Tenente Mário Tamarindo Carpenter. À noite ainda se ultimavam providências para a defesa das instalações. À 1 hora houve o primeiro disparo em direção à ilha de Cotunduba, logo seguido de outros contra a rocha da base do Forte do Vigia e contra o 3º Regimento de Infantaria, como protesto contra a prisão do Marechal Hermes. A unidade formada no pátio interno do Forte dava vivas ao marechal e cantava hinos patrióticos, na manhã de 5 de julho.

Era madrugada na Vila Militar quando irrompeu a revolta no quartel do 1º Regimento de Infantaria. O Tenente Frederico Cristiano Buys tentou sublevar a unidade, mas foi detido pelo comandante da unidade, Coronel Nestor Sezefredo dos Passos, e diversos oficiais. Tombou morto, no cumprimento do dever, o Capitão José Barbosa Monteiro. Também foram presos os oficiais que chegavam de trem à estação da Vila.

Talvez por desconfiança de todos contra todos, a tropa da Vila Militar permaneceu nos quartéis. Ameaçada pela Escola Militar e pela Escola de Aviação, é possível que uma ação mais ousada por parte dos integrantes destes dois estabelecimentos tivesse derrubado o baluarte da legalidade. Na verdade, a única força instruída, disciplinada, com valor e disposta a avançar era a Escola Militar; eram 449 alunos das quatro armas. Liderados pelos oficiais-instrutores Odílio Denys, Juarez Távora, Tristão de Alencar Araripe, Newton Cavalcanti, Falconière da Cunha, Gustavo Cordeiro de Farias, Canrobert Pereira da Costa e outros, dirigiram-se para a Vila Militar onde assumiriam postos de comando. Foram no entanto detidos no corte do riacho Piraquara, por efetivos que orçavam em 10 mil homens; combateram sem conseguir vencer a resistência. Foi uma luta inútil e seu comandante, Coronel João Maria Xavier de Brito Júnior, decidiu retrair para a Escola a fim de evitar maiores sacrifícios e baixas. Havia um morto (Cadete Flordoval Eliseu Xavier Leal) e vários feridos. A ordem de retirada foi recebida com protestos pelos alunos, mas foi cumprida.


A Vila Militar não se revoltou; foi reforçada por unidades vindas de outros pontos do Rio de Janeiro, inclusive uma companhia de metralhadoras pesadas, que ocupou a Escola Militar.

Na Escola de Aviação Militar, havia oficiais-pilotos-aviadores simpatizantes com a revolta. O Ministro da Guerra mandou ocupá-la na noite de 4 para 5 determinando, ainda, a prisão de vários oficiais em navios e fortalezas. Assim, os aviões permaneceram imobilizados.

Dominado o foco constituído pelo Realengo e pelo Campo dos Afonsos, voltou-se o governo sobre o Forte de Copacabana, lançando mão de batalhões do Exército e da Polícia Militar, sob o comando do Coronel João Nepomuceno da Costa, enquanto os encouraçados São Paulo e Minas Gerais, hidroaviões da Marinha e fortificações da baía de Guanabara bombardeavam o forte. O canhão 305 mm do forte não chegou a funcionar por falta de pressão hidráulica no mecanismo.

Chamado a parlamentar pelo Ministro da Guerra, o Capitão Euclides foi preso em Botafogo, na casa do pai, pelo Major Marcolino Fagundes; com a ausência do Capitão Euclides, o Tenente Siqueira Campos assumiu o comando. Por telefone, o Ministro da Guerra exigiu a rendição do forte. Dentro do forte, sob o impacto do bombardeio adversário, foi tomada a decisão de lutar de peito aberto, até o fim. Nesta oportunidade, os prisioneiros foram libertados e os que desejassem poderiam abandonar o forte; do total inicial de 301 revolucionários, restaram 29 homens. Siqueira Campos reuniu os companheiros, dividiu a bandeira nacional em 29 pedaços e distribuiu-os aos combatentes. O grupo saiu às 15 horas de 6 de julho ao encontro da força legal. Logo de início reduziu-se a 19, incluindo o engenheiro Otávio Correia, que resolvera solidarizar-se com o grupo. Os revolucionários rumaram para a Praça Serzedelo Correa, onde as forças governistas, que já haviam recuado, os esperavam.

Com fuzis, pistolas ou armas brancas nas mãos os revolucionários procuraram os adversários. Siqueira Campos, com a arma em posição de tiro, liderava a marcha, pacífica até a entrada da rua Barroso, que depois levaria seu nome.

Com muita calma percorreram grande parte da Avenida Atlântica. Quem os visse de frente observaria que Eduardo Gomes ia sobre o passeio e que o acompanhavam, na mesma linha, Mário Carpenter, Newton Prado, Otávio Correia e o soldado Pedro Ferreira de Melo.

As tropas do Batalhão de Guardas, da Marinha e da Polícia saíram da Praça Serzedelo Correia com a notícia da aproximação dos rebeldes e cruzaram a rua Barroso para receberem a rendição que esperavam. Em vez disso veio a ordem de fogo. O combate foi renhido e desigual. Entrincheirados por detrás do paredão que separava a praia do asfalto, os revolucionários respondiam a cada tiro da força com uma saraivada de balas. Mas, diante da superioridade numérica dos legalistas, começaram a tombar; os primeiros foram Pedro Ferreira de Melo, Otávio Correia, Mário Carpenter. Num último esforço, lutando como fanáticos, deslocaram-se alguns metros pela praia e bateram-se com tanto destemor que os governistas tiveram de ser reforçados para então contê-los à baioneta. Pedro Rocha narra:

"Que gente maluca! Fogo a vontade. As metralhadoras, em rajadas prolongadas, vasculharam o terreno, centímetro por centímetro. (...) Quantos minutos durou a fuzilaria? Ninguém mais se mexia na areia. Cessar fogo! Estariam todos mortos? 'Calar baioneta! Avançar, por lances!' (...) Carregavam contra mortos e moribundos. (...) No punhado de homens que se sacrificara por um ideal, todos os espécimes da raça brasileira estavam representados. Brancos, pretos, mulatos. Todos ignoravam a palavra medo.(...)"

A revolução foi dominada no Rio de Janeiro. Conseguiram sobreviver Eduardo Gomes, ferido no fêmur, o soldado Manoel Ananias dos Santos e Siqueira Campos, com o ventre perfurado. Newton Prado morreu no hospital.

Terminara a epopéia conhecida como os Dezoito do Forte.

Mato Grosso

Os episódios que envolveram a candidatura de Artur Bernardes à Presidência não influenciaram o General Clodoaldo da Fonseca que, apesar de positivista, não aceitou as propostas do Deputado Mário Hermes da Fonseca, seu sobrinho, para direcionar o país rumo a uma ditadura militar encabeçada pelo seu pai, o Marechal Hermes da Fonseca, com o qual manteve discreta distância. Seus artigos em jornais da época mostram o quanto se sentia desgostoso do modo como os políticos praticavam a República.

Em 14 de junho de 1922, foi nomeado comandante da 1ª Circunscrição Militar, em Mato Grosso, sede em Campo Grande.

As esperanças dos revolucionários ressurgiram com a notícia de que o General Clodoaldo da Fonseca revoltara a guarnição de Mato Grosso. Do Rio Grande nada se esperava: Borges de Medeiros condenara a revolução através do seu jornal, esfriando a agitação prometida nos pampas.

Ao assumir em 5 de julho, em Campo Grande, o comando da 1ª Circunscrição Militar, o General Clodoaldo da Fonseca reuniu a oficialidade e deu-lhe ciência da excitação produzida no Rio de Janeiro pelos acontecimentos político-militares, informando sobre o plano revolucionário e assegurando que era apoiado pela maioria do Exército, principalmente nos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Bahia e Minas Gerais.

Recebido o telegrama que comunicava o desencadeamento da revolta no Rio de Janeiro, o General Clodoaldo expediu ordens de mobilização e deslocamento de uma das unidades revoltadas para Três Lagoas. Foi divulgada uma proclamação aos habitantes de Mato Grosso e São Paulo, explicando a finalidade do movimento.

Os insurretos deslocaram-se para Três Lagoas. O General Alberto Cardoso de Aguiar, enviado pelo governo federal, convenceu-os de que a sublevação tinha sido um completo fracasso no Rio de Janeiro; nos demais Estados tinha sido abortada. Convencidos da inutilidade do prosseguimento, os sublevados de Mato Grosso depuseram as armas.

Um dos revolucionários, Capitão Joaquim Távora, não aceitou a capitulação e começou logo a articular outra conspiração, que faria eclodir em São Paulo dois anos mais tarde.

Iniciava-se o ciclo revolucionário brasileiro do século XX.

APÊNDICE DOCUMENTAL

Ação Judicial

O Procurador Criminal arrolou os oficiais que "tomaram parte ativa e material na revolta da Escola Militar, quer comandando os alunos revoltosos, quer combatendo ao lado deles", e que, como tais eram considerados co-autores do delito. "Foram então denunciados os seguintes oficiais: – Coronel João Maria Xavier de Brito Junior, cabeça do movimento, (Diretor da Fábrica de Cartuchos do Realengo) e comandante-em-chefe da coluna revolucionária; Capitão Odilon Antenor de Araujo (chefe do grupo na Fábrica de Cartuchos); 1ºs Tenentes Vitor Cesar da Cunha Cruz, Odylio Denys, Arlindo Maurity da Cunha Menezes, Stênio Calo de Albuquerque Lima, Brasiliano Americano Freire, Henrique Ricardo Hall, Juarez do Nascimento Fernandes Távora, Roberto Carneiro de Mendonça, Aristóteles de Souza Dantas, Mário Chaves Ferreira (da Fábrica de Cartuchos), Luiz Felipe de Albuquerque (da Vila Militar) e Eugenio Ewerton Pinto (do Colégio Militar); 2ºs Tenentes Illydio Rômulo Colônia, Sylo Furtado Soares de Meirelles (da Villa Militar), Aurélio da Silva Py (da Vila Militar) e Edmundo Macedo Soares e Silva e Cyro Espírito Santo Cardoso, pertencentes todos, com as citadas exceções, à Escola Militar.

Ordens sobre ex-alunos da Escola Militar

Ministério da Guerra – Rio de Janeiro, 12 de agosto de 1922 – N. 657.

Sr. Chefe do Departamento do Pessoal da Guerra – Declaro-vos, para os fins convenientes, que, nesta data, determino ao Commandante da 1ª Região Militar que providencie para que sejam enviados, convenientemente acompanhados, ás sédes das regiões em que devem ser excluidos do Exercito, os ex-alumnos da Escola Militar, de accórdo com o aviso nº 567 A, que vos dirigi em 22 de julho findo, e constantes da inclusa relação.

Ao Commandante da 2ª Região Militar caberá encaminhar, a partir de São Paulo, aquelles que se destinarem á 3ª Região e ás duas Circumscripções Militares.

Saude e fraternidade – Calogeras

RELAÇÃO DOS EX-ALUMNOS DA ESCOLA MILITAR ENVIADOS ÁS SÉDES DAS REGIÕES EM QUE DEVEM SER EXCLUIDOS DO EXERCITO, ONDE SE ACHAM ACTUALMENTE E RESPECTIVO DESTINO

Na 2ª Circumscripçcão Militar:

Francisco Torquato Paes Barreto, 3º R/I, Castro.

Na 1ª Circumscripção Militar:

Paulo Xavier, Fortaleza de Santa Cruz, Matto-Grosso.

Na 1ª Região Militar:

Ary Lopes Leal, 3º R/I, Barra do Pirahy; Julio de Miranda, 3º R/I, Nictheroy.

Na 4ª Região Militar:

Annibal Tiradentes de Araujo Doria, Policia Militar, Minas; Archimedes Lopes de Araujo Doria, 1º B/C, Barbacena; Isnard Teixeira Ribeiro, Fortaleza de Santa Cruz, Juiz de Fóra; Albano Osorio, Corpo de Bombeiros, Barbacena; Levy Doval Henriques, 1º G/A/P, Barbacena; Adriano Metello Filho, 2º R/I, Barbacena; José Bahia de Assis e Silva, 2º R/I. S. João d'EI-Rey.

Na 3ª Região Militar:

Antonio Fernandes Lima, 2º R/I, Itaquy; Antonio Alves Cordeiro, 1º R/I, Porto Alegre; Enapino Borges de Andrade, 1º R/I, Porto Alegre; Raphael Ferrão Teixeria, Policia Militar, Rio Grande do Sul; Hugo de Mattos Moura, Policia Militar, Rio Grande do Sul; Ernani Frota 1º G/A/M, S. Thiago do Boqueirão; Edgar de Aimeida Stuck, 1º G/A/M, Cruz Alta; Alintho Aramy Silva, 1º B/A/M, São Borja; Erotides Freitas de Almeida, 1º G/A/M, Porto Alegre; Antonio Ribeiro Weimann, 1º G/A/M, Santa Maria; João Cavalcante Rio, 2º R/I, Porto Alegre; Sady Castro, Fortaleza de Santa Cruz, Rio Grande do Sul; Osmundo de Almeida Vieira, 1º G/A/P Quaraim; Floriano de Azevedo Fernandes, 1º G/A/P, Porto Alegre; Ubirajara Monteiro de Arrochellas, Porto Alegre; Juremyr Pires de Castro, Policia Militar, Porto Alegre; Floridoneo Mattos Vanique, 2º R/I, Porto Alegre; Oscar Neves Varella, 2º R/I, Porto Alegre; João Fernandes de Albuquerque, 2º R/I, Porto Alegre; Boaventura Corrêa Freire, 2º R/I, Bagé.

Na 2ª Região Militar:

Waldomiro Lobie, Policia Militar, São Paulo; Amilcar da Serra e Silva, 1º B/C, Itú; João Almeida Vieira Filho, 1º G/A/M, Caçapava.

Na 6ª Região Militar:

Luiz Maximo Pereira de Araujo Junior, Policia Militar, Pernambuco; Mario de Almeida Brandão, Policia Militar, Pernambuco; Aracan Toscano, Fortaleza de Santa Cruz, Rio Grande do Norte.

Na 5ª Região Militar:

João Marinho Falcão, 1º G/A/M, Ilhéos (Bahia); Americo Mendonça, Fortaleza de Santa Cruz, Aracajú.

Na 7ª Região Militar:

Arnobio Rosa de Faria Nobre, 1º G/A/M, Pará; João Baptista Cordeiro de Mello, Fortaleza de Santa Cruz, Belém; Adalberto Baeta Nogueira, 1º G/A/P, Belém.

Ministerio da Guerra – Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1922 – N. 672.

Sr. Chefe do Departamento do Pessoal da Guerra – Declaro-vos que, em aviso desta data, ao Commandante da 1ª Região Militar determino que sejam postos em liberdade e expulsos do Exercito, por conveniencia da disciplina, os ex-alumnos da Escola Militar mencionados nas inclusas relações, que se encontram presos nesta região e declararam residir nesta Capital.

Saude e fraternidade – Calogeras.

RELAÇAO DOS EX-ALUMNOS DA ESCOLA MILITAR QUE SAO POSTOS EM LIBERDADE E EXPULSOS DO EXERCITO E QUE FICAM RESIDINDO NESTA CAPITAL.

Aristoteles Valença de Lemos; Carlos Rodrigues Coelho; Eugenio Gonçalves Porto; João Evangelista de Campos; Moacyr Nolle Coutinho; Sebastião Augusto de Carvalho; Odeval de Menezes Dias; Alcides Carneiro de Castro e Silva; Narciso de Azevedo Franco; Iberê Pires Ferreira; José Rodolpho Toledo de Abreu; Salm Miranda; Altair Franco Ferreira; Julio Caertner Filho; Luiz da Silva Guimarães; Jorge de Oliveira Tinoco; Amaury Pereira; Raymundo Theotonio de Moraes Quadros; Jayme de Castro Carvalho; Ariovaldo Benites de Carvalho Lima; Roberto de Souza Imenes Filho; Raphael Tobias de Magalhães; Domingos Miranda da Costa Moreira; Jorgefox Saladino de Argollo Silvado; Armando de Souza e Mello; Aristoteles Mendes dos Santos; Carlos Amorim; Edson Pires Condeixa; João Berendt de Oliveira; Carlos Americano Freire; Aristogitom Theophilo de Carvalho; Celso da Cunha Gonçalves; Armando de Noronha; Gilberto da Cruz Messeder; João de Souza Fernandes; Abda Araguarino dos Reis; Agostinho Pereira Alves Filho; Thales Osorio de Azambuja; Benjamim Cesar de Magalhães Serejo; Benjamin Nolle Coutinho; Eugenio Castilho Freire; Leopoldo Pereira Schimmelpfeng; Haroldo Bittencourt Brigido; José Constant Bevilaqua; Durval Custodio Nunes; George Americano Freire; Heitor Borges Fortes; Leonidas Oscar Corrêa de Moraes; Armando Ribas Leitão; Arnaldo Ferreira Sampaio; Augusto Esteves; João Luiz Job; Jacy Garcia Nunes; Pedro Corrêa Pinto; Walter Prestes; Jonas de Moraes Corrêa Filho; Amarylio Campos de Mattos; João Lindolpho da Camara Filho; Mario Gameiro; Manoel Xavier de Oliveira; Aristeo de Sá Britto Portella; Diogo de Figueiredo Moreira Junior; Atalibio Sobrosa de Resende; Osmar Soares Dutra; Paulo de Almeida Magalhães; José Sotero dos Santos; Eduardo Marques de Souza Filho; Gamaliel Ferreira da Silva; Alarico Paranhos Ferreira; Alpheu Baptista Cavalcante; Angelo Bonifacio do Amaral Bevilaqua; Moacyr Toscano; Olivio Goudim de Uzeda; Paulo Gonçalves Weber Vieira da Rosa; Waldemar Pereira Cotta; Mario Cyrino de Azevedo; Augusto Ribeiro dos Santos; Joaquim Innocencio de Oliveira Paredes; Lauro Nina de Medeiros; Murillo Penha Alves de Souza; Paulo Constantino Galvão; Pedro de Souza Bruno; Samuel da Fonseca Fernandes; Waldemar Barroso Magno; Arthur da Costa Seixas; Floriano Peixoto de Souza França; Humberto Salles de Moura Ferreira; Hildebrando Pelagio Rodrigues Pereira; Nelson Bittencourt de Oliveira; Walfrido Antonio dos Santos; Arnould Antunes Maciel; Assis Scafa; Augusto Cesar de Sampaio Vianna; Djalma Pio dos Santos; Floriano Peixoto Ramos; Frederico Ernesto da Cunha; Herculano Antonio Pereira da Cunha; Demosthenes Rodrigues Galhardo; José Victorino Corrêa; Raphael Munhoz de Moraes; João dos Reis Palmeiro; Ubirajara da Fonseca; Thomas Marinho de Albuquerque Andrade; Raul de Albuquerque; João Macedo Linhares; Dabney Nobre Freire; José Pompeo Monte; Paulo Monteiro Valente; Walmir de Araripe Ramos; Waldemar Monteiro; Ayrto Bittencourt Lobo; Walter Krammer Ribeiro; Ibá Jobim Meirelles; Felisberto Estevam de Oliveira Baptista; Francisco Carlos de Souza; José da Costa Monteiro; Waldemar Visconti; José de Moraes Castro; Felix Martins de Almeida; Alfredo Nunes Gonçalves Vieira Filho; Antonio da Rocha Almeida; Armando Manoel de Lima Carvalho; José Francisco de Faria Netto; Guilherme de Lara Tupper; Mario José de Faria Lemos; Alvaro de Sá Nogueira; Argeu Barroso de Siqueira Torres; Adovaldo Figueiredo de Souza; Donato di Domenico; Fernando Fernandes Guedes; Floriano Costa; Francisco Frylling; Aguinaldo Dias Uruguay; Frazão de Carvalho Teixeira; Arthur Levy; Orestes Cavalcante; João Coelho Torres; José Arruda Silva; Francisco Peixoto Assimos; Francisco Ignacio Martins Netto; Espiridião Rosas Filho; Armindo Pereira Villaça; Alceu Macedo Linhares; Heitor Eustorgio de Oliveira e Silva; Cassiel Cylleno; Plinio de Araujo Coriolano; lbsen Lopes de Castro; Francisco Roberto Figueiredo Barreto; Sebastião Agra Lacerda de Almeida; Mario de Carvalho Valle; Fernando da Silveira e Silva; José Durval Figueiredo; Manoel da Silva Séllos; Ary Alves; José Gonçalves Leite; Newton Siqueira; Nilo Santiago; Clovis de Castro Menezes; Paulo de Mello Moraes; Levino Costa da Cunha Lima; Cyro de Azevedo Coelho; Alberto Zamith; Raul de Mendonça Furtado; Annibal Faro; Osmar Fonseca; Luiz Felix Toledo de Abreu; Carlos Villamil Telles Ferreira; Roque da Silva Palmeiro; Urbano Pinto de Abreu; Apparicio Gonçalves Roma; Carlos de Campos Gay; Guaracy de Lima Daemon; Ives Fonseca e Silva; José Affonso Travassos Souto; João Cavalcante Rios; Jardel Fabricio; Mario Malta; Levergê José da Cruz; Annibal Ticiano Sayão Cardoso; Celio Martins Ferreira; Esculapio Castilho de Almeida; Francisco Faustino da Silva; Flavio Duncan de Lima Rodrigues; Alberto de Alencastro Guimarães; Hoche Monteiro Aché; Hiran de Oliveira; Dacio Cesar; Francisco Guimarães Lins; Luiz Baptista da Silva Pereira; Asperides de Souza França; Nelson Teixeira de Faria; Francisco Labanca; Mario da Costa Rubim; Asdrubal de Castro; Mario Victorio; Antonio Carlos Zamith; Jorge Duffles de Andrade; Celso Menna Barreto; Cesar de Oliveira Botelho; Christiano da Rocha Küster; Francisco Paulo de Faria; Luiz Ferraz Sampaio; Herodoto Baptista Cavalcante; Huyghens de Monte Lima; José Egydio de Moura; Milton Vasconcellos Monteiro; Astrogildo da Serra e Silva; Miguel Archangelo de Aguiar; Francisco de Godoy; Janduhy Toscano de Britto; José Pedro Cesario de Abreu; Emygdio da Costa Miranda.

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Revolução de 1922 - Exército Brasileiro - Braço Forte e Mão Amiga

 


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